A experiência prática de Paula e sua filha Nick com a história de “Ritoca” e a turma de “Não me toca, seu boboca!”

A experiência prática de Paula e sua filha Nick com a história de “Ritoca” e a turma de “Não me toca, seu boboca!”

Paula Cristina Ferreira, mãe de Nick, 4 anos

O livro ‘Não me toca seu boboca!’ veio para a nossa casa ilustrar um beabá que eu venho repetindo desde muito cedo com a Nick. Sempre considerei importante abordar esse tema com crianças e assim o fiz. Aqui trabalhamos prevenção desde 1 ano e ½ de vida dela. Acredito que, ao falarmos sobre essa triste possibilidade usando o livro, estamos dando de alguma forma repertório a essa criança para que ela crie uma reação de defesa a comportamentos suspeitos. O livro mostra que é permitido se defender, que ela pode correr, gritar! Valida os sentimentos de medo, vergonha... É incrível!

Falar sobre prevenção desde muito cedo é de alguma forma não dar oportunidade para que o ‘tio Pipoca’ chegue primeiro, entendem?

Aqui nós usamos o livro como uma das ferramentas num processo que começou quando a Nick tinha 1 ano e ½ e eu passei a trocar a fralda algumas vezes por dia em pé e de frente ao espelho. Colei alguns adesivos no espelho do guarda roupa, e ali era o nosso ambiente preparado. A gente cantava e brincava muito nesses momentos enquanto eu aproveitava para apresentar seu corpinho. Nick não falava, mas recebia muito bem a informação e me respondia sorrindo, colocando a mão onde perguntava, tipo: Cadê a cabeça? E ela colocava a mão... Cadê a barriga? Seca a barriga! E ela secava. Hehe! Com a familiarização, eu fui ampliando e passei a falar sobre as partes íntimas, ensinando o toque do sim e do não. ‘Pode pôr a mão na cabeça?’ Sim! Pode pôr a mão no braço? Sim! Pode colocar a mão no bumbum? NÃO! Eu sinalizava com a cabeça enquanto falava. Tudo isso na frente do espelho. Foi nessa fase inclusive que eu percebi que a Nick, mesmo com treino, não sinalizava SIM ou NÃO com a cabeça. Nós fazíamos isso todos os dias.

Depois dos 2 anos e ½, resolvi trabalhar pertencimento com ela, porque eu notava que ela não se reconhecia. Então, através de um simples porta retrato posicionado na parede à altura dela com a foto das pessoas que a manteriam a salvo, eu comecei a trabalhar isso. Nessa foto, apareciam 5 pessoas: papai, mamãe, (Teté e Juninho - irmãos) e ela. Eu mostrava e falava: Filha, nós te amamos! Essas são as pessoas que te mantém a salvo, não importa a situação em que você se encontrar, nós sairemos de qualquer lugar para te salvar.

Ela não falava, ela nem nos olhava, mas mesmo assim eu repetia todos os dias. QUANDO UMA PORTA SE FECHAR, TEM SEMPRE OUTRA PARA BATER! Eu te amo! Eu sempre vou acreditar em você. A mamãe e o papai são mais fortes que todo mundo depois de Deus. Deus está com a gente. Eu falo também que ela não precisa proteger a gente, porque nós também temos pessoas que nos mantêm a salvo. ‘Você sabia que os policiais são super-heróis? Eles nos mantêm a salvo. Quando a ameaça é grande, a polícia vem nos ajudar. Mas a gente precisava falar.’ Quando eu estou na rua com ela e vejo uma viatura, eu mostro e reforço, eles trabalham para nos manterem a salvo.

Com tantos estímulos, a fala da Nick veio, mas não era funcional. Foi quando descobrimos o autismo e caímos de paraquedas em um mundo completamente novo, que trouxe a consciência de uma vulnerabilidade e inocência ainda maior. Eu, que estava ali, sempre disposta a olhar, ouvir, entendê-la, me deparei com uma criança que não conseguia se comunicar. Não conseguia relatar uma angústia, uma alegria, um evento simples... Só repetia com muita ecolalia frases de desenho, trecho de músicas e minhas falas em terceira pessoa. Naquele momento, meu nível de alerta com ela foi a 1000%!

A necessidade de trazer tudo de uma maneira mais concreta, mais visual, se tornou indispensável. Ensinei a ela a frase: ‘me respeita!’, para quando ela não quisesse fazer algo. E ela falava. Quando eu via que ela estava em uma situação desconfortável, eu falava para ela: Fala assim, NICK: me respeita! E ela usava essa frase de maneira superfuncional. A ecolalia dela era bem funcional.

Passei então a investir em livros, seguindo a filosofia do método Montessori, com histórias mais próximas da realidade e de acordo com as fases que estivéssemos passando, de modo a dar a ela familiarização e repertório. Adquirimos o ‘Não me toca, seu boboca’, e, para a nossa alegria, a história é contada em primeira pessoa. Um relato de um evento passado. Algo que a gente tanto espera de uma criança autista. Eu já tinha visto um vídeo da FAFÁ, contando essa história no Youtube. Eu até cheguei a pensar que as ilustrações pudessem assustá-la, então fui com calma. Depois me dei conta de que não tinha mesmo outra forma representar tão bem um malvado e mostrei a ela. Quando eu mostrei a primeira vez, eu me encantei com a reação da Nick. Ela queria conversar com a coelhinha, já que estávamos no auge de estimulação focada. Ela interrompeu várias vezes com frases aleatórias, e tudo bem! Eu contava bem rapidinho, às vezes interpretando só a ilustração e no final eu apontava com ela os proibidos. Fui ampliando com tempo, lendo com ela mais devagar, dando o direito a um turno só dela para que pudesse brincar como quisesse, falar e inventar com o livro na mão.

Eu faço um rodízio de livros a cada 15 dias, e é muito legal perceber cada vez mais o envolvimento dela. A cada reencontro com a Ritoca, sempre vem uma palavrinha nova com função, e hoje com quase 4 aninhos eu tenho percebido ela compartilhando inclusive essas informações, aprendizado moral, sabe? É muito fofo... hehe! É uma bênção! E eu vou flexibilizando para outros momentos, outros ambientes, como na hora do banho ou quando a levo ao banheiro. Vou dando previsibilidade, avisando que eu vou pôr a mão ali para limpar, e que não é qualquer pessoa que pode limpá-la e que ela precisa sempre contar para mamãe quando alguém colocar a mão ali, mesmo para limpar. Como disse no início, é um processo. Hoje eu falo para ela: FILHA, QUEM PODE PÔR A MÃO NAS SUAS PARTES ÍNTIMAS? E ELA RESPONDE: NINGUÉM! MAS E SE ALGUÉM COLOCAR? ELA FALA: EU VOU CONTAR PARA A MAMÃE.

Se é ecolalia? Não sei, pode ser, mas é muito funcional.
Precisamos levar em conta que eles aprendem pela repetição, e eu acredito na internalização das palavras. A gente nunca perde por falar e, quanto antes começar, melhor.